Paulo Veiga analisa as mudanças nas organizações em resultado da crise pandémica

A pouco e pouco, espera-se que voltemos à vida “normal” ou pelo menos ao “novo normal”. Uma coisa é certa: este “novo normal” nada tem a ver com o “antigo”, e o regresso às condições que prevaleceram em 2019 é muito improvável. Acreditemos que este momento delicado vai passar e que novas tendências vão emergir.

A pandemia trouxe mudanças disruptivas para todos: famílias, Estado e, sobretudo, para as empresas. Todos esperamos e desejamos que 2021 seja o ano da transição e as mudanças vão, consequentemente, emergir.

Segundo o Observatório de Tendências, 52% dos portugueses estão adaptados à nova realidade, o nosso grau de otimismo no futuro situa-se nos 6,1 em 10. Acredito que o coronavírus funcionou (ou funciona) como uma espécie de “acelerador do futuro”. Ou seja, a pandemia veio antecipar mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação à distância, a procura da sustentabilidade e a transformação digital.

Os consumidores ganharam confiança acrescida e as compras online já fazem parte da rotina de muitos. Aliás durante este período, o crescimento das vendas online foi exponencial e foram perceptíveis as inúmeras vantagens.

Quanto às empresas, o empreendedorismo e inovação ganharam força e destaque no seu crescimento. Fruto da crise, as empresas reinventaram-se e uma das soluções encontradas foi a digitalização, permitindo assim a manutenção da sua atividade e até o aumento da produtividade.

A pandemia antecipou mudanças. O futuro é hoje!

Platão tinha razão: a necessidade é mesmo a mãe de toda a invenção. E, de facto, é o que nos move. Durante a pandemia, a digitalização foi uma das áreas que teve um crescimento mais significativo e que abrangeu quase tudo: desde o atendimento online ao consumidor, ao trabalho remoto, à saúde e a tantos outros setores. Até então, muitas empresas temeram ou adiaram este passo, mas cedo perceberam que se queriam sobreviver e gerar produtividade tinham que aderir à (r)evolução digital.

Parece-me que é muito evidente que já não há volta a dar: a grande aceleração no uso de tecnologia, digitalização e novas formas de trabalhar são o futuro imediato, é o presente.

Longe vão os tempos em que foi necessária uma década ou mais para que as tecnologias disruptivas se transformassem em fatores de produtividade. Fruto dos tempos, as empresas tiveram de se esforçar significativamente para instalar ou adaptar novas tecnologias, sob imensa pressão. E a maior parte conseguiu. A maior parte percebeu, atempadamente, que a melhor vacina para a sua organização era dar este salto.

O “novo normal” trouxe-nos outra certeza: o futuro do trabalho chegou antes do previsto. Antes da pandemia falava-se muito nisso e já algumas empresas tinham aderido a esta nova forma de trabalhar. Mas com o surgimento do novo coronavírus, dezenas de milhões de pessoas transitaram, de um dia para o outro, para o trabalho a partir de casa. O McKinsey Global Institute (MGI) estima que mais de 20% da força de trabalho global pode trabalhar a maior parte do tempo fora do escritório – e obter o mesmo nível de eficiência. E tal só foi e é possível graças aos avanços e à aceleração na automatização e digitalização. Como observou o CEO da Microsoft, Satya Nadella, em abril de 2020, “assistimos a dois anos de transformação digital em dois meses”.

2021 será também marcado pela sustentabilidade empresarial como sendo a palavra-chave do cenário pós-covid. A pandemia ressaltou algo que já sabemos há algum tempo: a sustentabilidade empresarial não é apenas uma mera tendência, é uma necessidade.

As empresas vão ter de adotar processos para contribuir positivamente com todos os elos da sociedade. Verde é a cor da recuperação. Cabe às empresas agir para diminuir riscos climáticos. Como? Por exemplo, tornando os seus investimentos de capital mais resilientes ao clima ou diversificando as suas cadeias de suprimento.

A crise pandémica está a dar lugar a uma reestruturação dramática da ordem económica e social

Há inúmeras oportunidades de crescimento verde em setores de massa como a energia ou a mobilidade. Da mesma forma que as empresas da economia digital incrementaram os seus retornos nos mercados de ações nos últimos 20 anos, as empresas de tecnologia verde poderão vir a desempenhar este papel nas próximas décadas.
Finalmente, uma palavra para os stakeholders. Todos sabemos que as empresas devem procurar servir os interesses dos consumidores, fornecedores, colaboradores, sociedade bem como dos acionistas.

O fabricante americano de chocolate Milton S. Hershey referiu, há mais de um século, que “o negócio é uma questão de serviço humano”.  Julgo que ninguém questiona esta afirmação. Para mais, o próprio mercado livre tem sido uma força social positiva, alimentando o crescimento económico que tem trazido avanços críticos na saúde, longevidade e na prosperidade geral em todo o mundo.

As empresas para operarem, para além de gerarem lucro, necessitam de construir uma relação de confiança, terem um propósito, criar valor para os acionistas. Ambos os propósitos não são incompatíveis, antes pelo contrário. A longo prazo só sobrevivem as empresas que geram lucros, receitas, investimento e crescimento do emprego.

Parece-me claro que a crise pandémica está a dar lugar a uma reestruturação dramática da ordem económica e social. Mas com a administração das vacinas é possível sermos, cautelosamente, otimistas.

Quero acreditar que o “novo normal” pode ser melhor do que o que conhecíamos. Porque não? Apenas depende de nós. Com uma boa liderança, as mudanças que mencionei podem ser o nosso melhor futuro. O futuro que tanto desejamos.

(in https://www.empreendedor.com/opiniao-a-pandemia-e-um-acelerador-do-futuro/)