O Estado não pode transformar os cidadãos em utilizadores beta das suas soluções digitais. Quando estão em causa direitos, justiça, saúde ou educação, experimentar não é inovar, é irresponsabilidade.
Há coisas com as quais um Estado simplesmente não pode brincar
Pode lançar uma campanha que não resulte. Pode anunciar uma medida que mais tarde seja revista. Pode até mudar uma estratégia porque o contexto mudou, mas existem áreas onde não existe margem para improvisar: a saúde, a justiça e a educação.
Os problemas que surgiram na classificação dos exames nacionais vieram recordar-nos exatamente isso.
O problema nunca é apenas uma plataforma, ou o sistema, ou a informática. O problema é alguém ter decidido que ela estava preparada para responder a uma realidade para a qual, aparentemente, não tinha sido concebida.
Vivemos uma época em que tudo parece ter de ser digital, inteligente, automatizado e, se possível, baseado em inteligência artificial. Ainda bem. O Estado deve modernizar-se, investir em tecnologia e, muito importante, dar o exemplo.
O que não pode é confundir inovação com improvisação, porque são coisas completamente diferentes.
Inovar é preparar, testar, validar, medir risco e assumir responsabilidades. Improvisar é acreditar que a tecnologia resolve, por si só, problemas de organização, de planeamento ou de decisão.
Não resolve.
Na gestão aprendi uma coisa simples: os problemas tecnológicos raramente começam na tecnologia. Começam quase sempre numa decisão errada.
Há problemas que aceitam remendos, mas outros exigem uma reconstrução de raiz. O Estado português tem demasiada tendência para tratar cirurgias de coração aberto com pensos rápidos. Durante algum tempo parece funcionar, até deixar de o fazer.
Na saúde, um erro pode comprometer uma vida. Na justiça, pode prejudicar, por vezes irremediavelmente um cidadão ou de uma empresa, durante anos.
Na educação, pode condicionar o futuro de centenas de milhares de jovens que fizeram aquilo que lhes era exigido: estudar, preparar-se e confiar que o sistema faria a sua parte.
É precisamente por isso que estas áreas exigem um nível de rigor completamente diferente.
Não basta que uma solução funcione em teoria. Tem de provar que funciona na escala para que foi pensada. Tem de ser preparada para o pior cenário, não para o melhor.
Tenho visto muito debate sobre empresas, plataformas, contratos e responsabilidades. É uma discussão legítima e haverá certamente quem tenha de a fazer, mas a mim interessa-me outra pergunta.
Quem decidiu que o risco era aceitável? Porque esta foi a verdadeira decisão, e, atenção, esta decisão nunca é tecnológica, é de liderança.
O Estado não pode transformar os cidadãos em utilizadores beta das suas soluções digitais. Quando estão em causa direitos, justiça, saúde ou educação, experimentar não é inovação, é irresponsabilidade.
Portugal apresentou recentemente uma Agenda Nacional para a Inteligência Artificial. É uma boa notícia.
Precisamos dela. Precisamos de modernizar, simplificar e tornar mais eficiente o Estado, aumentar a produtividade e colocar a tecnologia ao serviço das pessoas. Modernizar o Estado exige mais do que investimento tecnológico, é preciso disciplina na execução e responsabilização pelas decisões.
A principal lição deste episódio é simples: a verdadeira transformação digital não acontece quando um processo passa para um computador, mas sim quando a qualidade das decisões passa a ser superior à velocidade da tecnologia.
A tecnologia agraciou-nos com a possibilidade de fazer muitas coisas de forma mais rápida, mas também nos permite errar mais depressa. A diferença entre progresso e improvisação continua a depender da mesma variável de sempre: a qualidade da liderança.
Temos de correr, ninguém duvida disso, mas antes de acelerar, convém termos a certeza de que sabemos para onde vamos.
Paulo Veiga
(CEO da EAD)
in: (https://observador.pt/opiniao/exames-nao-confundamos-inovacao-com-improvisacao/)