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O que os CEOs ainda não aprenderam com o futebol

Sapo TEK

Paulo Veiga pega no exemplo do Futebol para mostrar como a tecnologia apoia a competitividade e a estratégia dos clubes. E lembra que decidir mais depressa vale hoje mais do que trabalhar mais.

Vemos o futebol como adeptos, num mundo emocional, impulsivo e até pouco racional. Um setor basicamente alimentado por paixão, intuição, sorte e muito ego. Curiosamente, foi precisamente o futebol que percebeu, bem antes de muitas empresas, o verdadeiro valor da informação, dos dados e da inteligência artificial.

Enquanto muitas empresas ainda discutem se devem ou não usar IA, os grandes clubes já perceberam uma coisa essencial: quem decide melhor ganha mais depressa.

Hoje, o futebol profissional é tudo menos improviso. Os clubes analisam padrões de comportamento, risco de lesão, intensidade física, posicionamento, métricas de recuperação, valorização potencial de atletas e até perfis psicológicos. Há equipas inteiras dedicadas à análise de dados, há modelos preditivos para scouting, inteligência artificial aplicada à performance e à gestão do negócio.

Isto não acontece porque o futebol, de repente, se tornou “tecnológico”. Acontece, sim, porque se tornou competitivo ao extremo.

Tal como em Portugal, onde os 4 grandes onde os departamentos de scouting já utilizam modelos analíticos que seriam impensáveis há uma década, em Inglaterra, clubes como o Brighton ou o Brentford, perceberam cedo que não podiam competir financeiramente com os gigantes da Premier League.

Então decidiram competir melhor. Apostaram em dados, modelos preditivos, análise de performance e decisões menos emocionais. O resultado? Conseguem hoje contratar jogadores antes de estes explodirem no mercado, vender melhor e competir acima daquilo que o seu orçamento permitiria há alguns anos.

Tal como nas empresas, no futebol moderno, errar custa milhões, e nem sequer existe tolerância empresarial suportada por uma estratégia a médio prazo. Nas empresas ainda conseguimos mascarar ineficiências durante anos com reuniões, relatórios, apresentações e palavras bonitas. No futebol não. Ou ganhas ou perdes.

E talvez seja precisamente por isso que o futebol tenha avançado mais depressa do que muitas organizações tradicionais. Porque percebeu rapidamente, que informação sem decisão não serve para nada.

Aliás, talvez a grande mudança esteja aqui: os setores mais competitivos do mundo perceberam que decidir mais depressa vale hoje mais do que trabalhar mais. E isto muda-nos completamente as regras do jogo corporativo.

Há empresas que parecem sofisticadas porque têm dashboards por todo o lado, plataformas novas e relatórios intermináveis. Mas continuam lentas, a decidir por feeling, política interna e ego, e continuam presas a processos antigos e culturas que confundem experiência com resistência à mudança.

Talvez seja precisamente aqui que reside o verdadeiro problema português. Grande parte das empresas ainda está numa fase muito inicial de transformação, a tentar organizar dados, integrar sistemas e perceber onde está a informação crítica do negócio. Falar de inteligência artificial sem resolver esta base é construir em cima de terreno instável.

A Europa já está atrasada face aos Estados Unidos e à China nesta corrida. Portugal, em muitos setores, ainda está atrasado face à própria Europa. É claro que isto também significa que existe margem para acelerar, mas nunca sem antes entendermos que a IA não começa na tecnologia, mas na organização da informação. A inteligência artificial não salva empresas desorganizadas, culturas lentas ou lideranças sem visão, ela amplifica aquilo que já existe. Ou seja, se a base for má, o resultado será apenas desorganização mais rápida.

O mais irónico é que o setor que muitos ainda olham como “brainless” acabou por perceber antes de muitos CEOs aquilo que realmente cria valor no século XXI: transformar informação em decisão rápida, prática e objetiva. O futuro não vai pertencer a quem tiver mais dados, mas a quem souber o que fazer com eles.

Em conclusão, a inteligência artificial não cria inteligência organizacional. Ela amplifica a inteligência, ou a desorganização que já existe. Mas também é preciso termos em conta que já não se compete por escala. Hoje competem através da velocidade da decisão e, tal como no futebol, é preciso correr, mas temos de saber para onde.

Paulo Veiga – CEO da EAD

(in https://tek.sapo.pt/opiniao/artigos/o-que-os-ceos-ainda-nao-aprenderam-com-o-futebol/)

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