EXAMES NACIONAIS: A TECNOLOGIA DEVE ELIMINAR O RISCO, NUNCA CRIÁ-LO

Imagens site

A polémica em torno dos exames nacionais trouxe para o centro do debate temas como a digitalização, a escalabilidade das plataformas tecnológicas e a gestão da informação crítica. Pela primeira vez, todas as disciplinas sujeitas a exame nacional no Ensino Secundário foram corrigidas de forma digital. Depois do projecto-piloto em 2025, o processo registou este ano lectivo muitos constrangimentos, com várias dificuldades reportadas pelos professores na plataforma de correcção, um problema que levou à alteração do calendário da segunda fase das provas nacionais.


O ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, pediu desculpa aos professores pelas “falhas” e garantiu já que haverá auditoria. Do lado político, algumas vozes pediram a demissão do ministro. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, que demorou a falar do assunto, admitiu, entretanto, a existência de “eventuais falhas políticas” no processo de classificação dos exames nacionais, cujo prazo teve de ser prolongado face às dificuldades registadas no modelo digital, mas também apontou o dedo à “resistência” de alguns docentes que diz discordarem do passo que o Governo quer dar.


O “Campeão das Províncias” falou com Paulo Veiga, CEO da EAD, uma das maiores empresas ibéricas especializadas em gestão documental e transformação da informação, e que acompanha diariamente projectos que envolvem a captura, digitalização, tratamento e disponibilização segura de milhões de documentos para organizações dos sectores financeiro, saúde, administração pública, telecomunicações e grandes empresas.


Um “processo crítico”


Sobre todo este processo em torno da digitalização dos exames nacionais do 11.º e 12.º anos, Paulo Veiga vê tudo isto com “muita preocupação”.


“A digitalização dos exames nacionais era inevitável e é um passo na direcção certa. Não podemos defender um Estado moderno e, ao mesmo tempo, recusar a inovação, como parece por considerarem. Contudo, diz que o problema nunca foi a digitalização, mas sim ‘a forma como a mudança foi preparada e executada’.”


“Quando falamos de exames nacionais, falamos de um processo crítico, que influencia o futuro de milhares de jovens. Nestes casos, a exigência tem de ser muito superior à de um projecto tecnológico convencional”, vinca.
O CEO da EAD recorda que, “antes de abrir os centros de vacinação, por exemplo, foi realizado um trabalho intensivo de simulação, teste de cenários e preparação operacional, permitindo depois replicar o modelo com rigor. Em projectos críticos, este tipo de preparação faz toda a diferença”.


Além disso, sublinha, “a tecnologia está ao serviço das pessoas e não pode ser avaliada apenas quando funciona. Tem de estar preparada para responder a excepções, falhas ou picos de utilização e assente em processos de workflow robustos, com contingências identificadas e mecanismos de mitigação. É precisamente nestes momentos que se mede a fiabilidade de uma solução”.


Os erros foram muitos, desde falhas na leitura de QR Codes, problemas na digitalização de provas, como exames incompletos e imagens ilegíveis, e lapsos na distribuição aos professores classificadores.


Onde ficou o planeamento e a eficiência na implementação do sistema? À pergunta, Paulo Veiga é categórico: “é algo que, de todo, não conseguimos entender. No ano passado digitalizámos mais de 50 milhões de páginas para entidades públicas, bancos, seguradoras e operadores de telecomunicações. Naturalmente, sem conhecer toda a informação disponível, seria irresponsável apontar responsabilidades concretas. Mas há uma evidência: quando ocorrem falhas em cadeia, normalmente não estamos perante um problema exclusivamente tecnológico”.


Projectos desta dimensão, explica o responsável, “exigem pilotos robustos, testes de carga, planos de contingência, rastreabilidade e mecanismos permanentes de monitorização. Na maioria dos casos, os problemas tecnológicos começam muito antes da tecnologia. Começam na governação do projecto, na avaliação do risco e na tomada de decisão. A transformação digital exige disciplina de execução. Não basta implementar uma plataforma, é necessário garantir que todo o ecossistema funciona em conjunto”.


Paulo Veiga acompanha diariamente projetos que envolvem a captura, digitalização, tratamento e disponibilização segura de milhões de documentos para organizações de variados setores.


“Na EAD, independentemente do sector, seguimos sempre o mesmo princípio: primeiro desenham-se os processos em conjunto com o cliente, a integração e interoperabilidade entre sistemas de captura, leitura e gestão documental e, finalmente, realizamos uma prova de conceito, onde testamos toda a operação, a tecnologia, integração, pessoas e processos”, refere.


Depois, cada documento percorre um fluxo totalmente controlado, com mecanismos permanentes de autenticação, assinatura digital, validação, rastreabilidade, auditoria e controlo de qualidade. Num processo rapidamente, mas garantir que cada documento chega correctamente ao destino, completo, legível e associado à pessoa certa. A tecnologia deve eliminar o risco, nunca criá-lo.


Paulo Veiga acrescenta que “quando falamos de exames nacionais, processos clínicos ou operações bancárias, a tecnologia deixa de ser apenas uma infra-estrutura digital. Passa a ser uma infra-estrutura de confiança” e que “não pode falhar precisamente quando é mais necessária”.


“Os problemas tecnológicos começam quase sempre numa decisão errada”


A nível da gestão da informação e das plataformas, os procedimentos são “tecnicamente complexos”, afirma o CEO da EAD. Todavia, “essa complexidade nunca deve ser sentida pelo utilizador”.


“Uma boa plataforma é aquela que consegue esconder toda a complexidade operacional através de processos simples, intuitivos e seguros. O grande desafio está nos bastidores: integração entre sistemas, controlo de qualidade, gestão de excepções, segurança da informação e monitorização permanente. Quando tudo está bem desenhado, o utilizador quase nem se apercebe da complexidade existente. Isto, bem feito, representa 80% do sucesso”, garante.


O papel da liderança e da governação nos processos de transformação digital “é absolutamente determinante”, sublinha Paulo Veiga, adiantando que “existe uma tendência para atribuir à tecnologia sucessos ou fracassos que, na realidade, pertencem à liderança”.


“Os sistemas executam aquilo para que foram preparados, são autistas. Quem define prioridades, aceita riscos, aprova calendários e decide avançar são as pessoas. A transformação digital é, acima de tudo, um processo de gestão da mudança. Costumo dizer que os problemas tecnológicos começam quase sempre numa decisão errada”, sustenta.


A nível de danos reputacionais, Paulo Veiga declara que “quando a confiança é um activo fundamental, pais, alunos e professores precisam de acreditar que o sistema funciona de forma previsível, justa e segura”.


“Sempre que ocorre uma falha num processo desta natureza, não fica apenas em causa uma plataforma informática, mas a confiança nas instituições. A boa notícia é que a confiança pode ser recuperada, desde que exista transparência, capacidade de reconhecer os problemas, aprender com eles e corrigir os processos”, frisa.
Questionado sobre onde se encontra hoje Portugal e as suas organizações e empresas em matéria de digitalização, o CEO da EAD afirma que “Portugal evoluiu muito na última década. Hoje encontramos empresas portuguesas com níveis de digitalização absolutamente comparáveis aos melhores exemplos internacionais”.


“Mas ainda existe uma diferença importante entre digitalizar e transformar. Digitalizar é converter processos em formato electrónico. Transformar é redesenhar processos, simplificar operações e melhorar decisões. Ainda há muitas organizações que investem primeiro em tecnologia e só depois pensam na organização da informação”, realça.


No futuro, garante, “a competitividade dependerá menos da quantidade de tecnologia instalada e muito mais da qualidade da informação e da rapidez com que essa informação é transformada em decisão”.


“A Inteligência Artificial vai acelerar esta tendência, mas atenção, ela não cria inteligência organizacional. Amplifica aquilo que já existe. Se a organização estiver bem preparada, os ganhos serão enormes. Se estiver desorganizada, apenas conseguirá errar mais depressa”, remata.

Partilhar artigo

Outros artigos